quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Na dúvida, ele deixou a mochila arrumada no porta malas.
Sabia que não ia mais usá-la, mas não conseguia tirá-la de lá.
Não queria usá-la mais, sua cabeça não permitia, mas a mochila continuava lá, intacta.
Nela uma toalha, uma roupa, escova de dentes e um desodorante.
Quando estava colocando as coisas dentro dela, cantarolou, como há muito não fazia.
Estava feliz, numa tranquilidade absurda. Fez aquilo como se já tivesse feito muitas vezes, mas era a primeira. Sentiu como se ainda fosse fazer muitas outras ainda. Cantarolou mais um pouco.
No meio do caminho se inquietou, depois de um tempo, mudou de idéia. Mas nada disse.
O estômago embrulhou.
Gritou, calou.
Deu meia volta, pra casa. Se jogou debaixo do chuveiro, só usou água, nada mais. Se deitou na cama, se agarrou com o travesseiro e dormiu.
Não abriu o porta malas, muito menos a mochila, nem no dia nem nos que seguiram.
Queria ir lá, pegar suas coisas e jogar no armário, mas não conseguia.
As vezes esquecia.
Lembrava, pensava, sentia.
Pensava em como seria se tivesse aberto a mochila.
"Pra que, pra que? Só pra guardar tudo sujo de volta nela?"
Cansado, paranóico, foi tomar whisky com seus amigos. Eles com certeza fariam com que ele se sentisse melhor, eles deveriam pensar como ele.
Engano.
Os dois o chamaram de otário.
- Porra, mermão! Vai deixar essa mochila fechada pra sempre?!Abre essa porra logo, usa! Depois lava se necessário!
Pensou que era fácil pra eles falarem, não seriam eles a ter que lavar tudo depois. Na verdade..Eles já estavam acostumados a fazer isso. Mas ele não.
Ele tinha pânico de sujeira e mais ainda de sabão em pó.
Foi pra casa bêbado, faltou o trabalho no dia seguinte. Na hora do almoço foi pra uma reunião. Quando entrou no carro pra ir embora decidiu que ia tirar logo aquela mochila do porta malas, ia guardar tudo no armário.
Não conseguiu. E se ele precisasse mais tarde daquelas coisas e ela não tivesse mais lá? Não fez nada.
O nada costumava ser cômodo pra ele, por que diabos não era mais?
"Ele sofre do pensamento."
A mochila continua lá...Tanto tempo depois.
Talvez um dia, quando ele decidir usar a roupa que está dentro dela não tenha mais pra onde ir com a mesma. Pode ser também que não caiba mais.
Mas ela está lá, assombrando sua mente.
Eu queria dizer pra ele parar de besteira e resolver isso logo antes que seja tarde, mas tenho medo de ser culpada por uma torturante lavagem de roupas.

Um comentário:

  1. de alguma forma me identifiquei com esse texto!!
    such a coincidence ou apenas interpretacao.......
    :D

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